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Quarta, 29 Novembro 2017 07:42

Edith Piaf, entre o delírio e a agonia.

A mulher pequena, de personalidade complexa e uma existência marcada por tragédias e tristezas até chegar a ser considerada uma das grandes vozes do século XX.

Edith Giovanna Gassion nasceu em 19 de dezembro de 1915, em Paris, e teve uma infância de privações, desfavorecida e sozinha.

A mãe era cantora de cabaré e o pai, acrobata de rua. Foi criada pelas avós — primeiro a materna, acusada de maus-tratos; depois pela paterna, dona de um bordel na Normandia.

Aos 15 anos passou a se sustentar pelas ruas de Paris, cantando por uns trocados. Aos 16 teve um relacionamento amoroso com um entregador, pai de sua única filha, Marcelle, que morreu de meningite aos dois anos de idade.

Descoberta por Louis Leplée, dono de um famoso cabaré de Paris, o Le Gerny’s, ele a batizou de la Môme Piaf, expressão francesa que significa “pequeno pardal”, numa referência à sua baixa estatura (1,47 m).

 

Em 1936 ela grava seu primeiro disco, bem aceito pela crítica e pelo público. No entanto, o assassinato de seu mentor, Leplée, insinua seu nome na cena do crime, em desconfianças que, mais tarde, se mostraram sem fundamentos. Mas o estrago já estava feito: sua imagem foi maculada pela mídia negativa e a carreira estava por um triz. Numa tentativa de recomeço, procurou o compositor Raymond Asso, que passou a instruí-la na nova etapa da profissão. Foi ele o responsável também pelo novo nome — Edith Piaf —, que em pouco tempo já brilhava no cenário musical como a vedete francesa, unanimidade entre as rodas de intelectuais da elite. A vida nas ruas havia, definitivamente, ficado para trás.

Foi convidada para trabalhar no teatro e no cinema, tomou aulas de etiqueta social, de técnicas de palco, de figurino. A voz de Edith se repetia nas rádios, suas músicas aplacaram a tensão da hostilidade militar que rondava o mundo durante a Segunda Guerra.

Em 1944 conhece o jovem cantor Yves Montand, que será seu amigo e amante. No ano seguinte compõe um de seus maiores clássicos, “La Vie en Rose”. O fim da guerra leva Edith ao mundo e o sucesso internacional chega rápido.

Nos Estados Unidos conhece o pugilista Marcel Cerdan que, segundo os biógrafos, foi o grande amor de sua vida. Mas os grandes amores, quando se encontram, não duram pra sempre: Marcel morreu em 1949, num acidente de avião. Foi em homenagem a ele que Edith gravou a famosa “Hymne à l’amour”. Abalada pela perda trágica do companheiro ela se refugia nos excessos de álcool. Uma dor se junta à outra, e o reumatismo a levará à morfina. Sem saber lidar com ambas, o comportamento irascível e as atitudes descontroladas lhe fazem companhia e deixam marcas em sua fama.

Nos anos seguintes ela sofre dois sérios acidentes automobilísticos, que fragilizam sua saúde. Mas a agenda de apresentações havia sido retomada, e o sucesso continuava invicto. Ovacionada nos palcos, a cantora miúda se agigantava com a voz e o talento inabaláveis.

Em 1958, outro grave acidente, que a deixa mais debilitada e impõe limites à carreira. Diante de sucessivos desmaios e várias hospitalizações ela decide se recolher. Antes, porém, em 1960, ela grava “Non, je ne Regrette Rien”, um de seus maiores sucessos, e que é uma reflexão sobre sua própria vida e seus fantasmas.

 

Seu percurso, embora breve, foi de intensidades e rupturas — seja na música, seja no terreno dos relacionamentos. O pequeno pardal, que nunca escondeu a grandeza interpretativa da mulher, comoveu com as letras tristes e a dimensão das melodias. Idolatrada por fãs de várias gerações de todas as partes do mundo, Edith Piaf se despede em 10 de outubro de 1963, aos 47 anos. Não foi um gênio consumido pelas próprias chamas, mas tentou sobreviver à pobreza, ao abandono, às infelicidades amorosas, aos desígnios divinos. Fez tudo que soube, fez tudo que pôde. E repetiu seu hino eternizado até o fim “Não me Arrependo de Nada”.

 

“Quando eu penso em minha vida, sinto vergonha de mim mesma. Quando revejo esta mulher pequenina, que atravessa a noite com sua solidão e seu tédio, penso que fui, algumas vezes, injusta e má. Eu fui também temperamental, colérica e autoritária. A todos peço perdão. Minha vida foi absurda”.

(trecho de uma de suas biografias)

 

 

Chris Dalla Costa

 

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