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Sábado, 04 Novembro 2017 09:43

O Velho e o Mar – 1958 (Resenha)

O estadunidense Ernest Hemingway

É um dos nomes fundamentais da arte do século XX e um dos pilares de toda a literatura contemporânea.

A qualidade de sua obra é diretamente proporcional a agitação de sua vida. Quando jovem, foi motorista de ambulância durante a Primeira Guerra Mundial, na Itália.

Além disso, cobriu, como jornalista a Guerra Civil Espanhola e, como resultado do tempo em que viveu lá, virou informante especial dos EUA sobre simpatizantes do fascismo situados na Espanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Somado a isso, foi casado quatro vezes e morou, nos anos 20, junto com outros grandes artistas como Gertrude Stein e F. Scott Fitzgerald, em Paris (como é retratado no filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen).

Porém, apesar da vida extremamente movimentada, Hemingway morou muitos dos últimos anos de sua vida (faleceu em 1961) em Cuba, mais precisamente em Havana, onde desenvolveu uma grande paixão pela pesca. E, após ter escrito livros imortais como Por Quem Os Sinos Dobram e O Sol Também Se Levanta, o autor decidiu declarar seu amor à pescaria em sua última grande obra publicada em vida, O Velho e O Mar, em 1952. Um livro simples e curto (cerca de 120 páginas), que narra a história de Santiago, um velho pescador cubano que se encontra em uma maré de azar.

Nos últimos 84 dias, não pescou um peixe sequer. Os outros pescadores zombam dele. Manolin, o jovem ajudante e fiel amigo do velho, foi forçado por seu pai a trabalhar em outro barco, um que não seja azarado. Santiago possui uma rotina bem definida. Acorda, veste as calças que usou como travesseiro, recolhe os equipamentos necessários ao seu trabalho, acorda Manolin em sua casa, bebe um café e parte ao mar em seu barco.

Após o dia de pescaria, volta para sua casa, onde lê, religiosamente, os resultados e as notícias da liga estadunidense de beisebol. À noite, enquanto dorme, sonha com lembranças de sua juventude, como as vastas praias da África e das constantes brincadeiras entre os filhotes de leão que lá viviam.

No octogésimo quinto dia, repetiu os tradicionais rituais e pôs-se ao mar. Sentia que poderia ser um dia diferente, e que a sorte poderia sorrir para ele. Após tanto tempo sem resultados, o velho vê que uma de suas iscas foi fisgada. Quando vai puxar a linha, sente um peso descomunal vindo das profundezas. Sabe que é um peixe grande.

Inicia-se, a partir daí, um grande duelo. Durante três dias, Santiago permaneceu em seu barco enquanto o peixe o carregava mar adentro. Por mais que a fome, os ferimentos em suas mãos (causados pela linha), o cansaço de seu corpo e a resistência do peixe fossem constantes, ele não desistia. Conversava sozinho, com as estrelas, com os pássaros, com o próprio peixe.

Depois de tanta luta, Santiago puxa o enorme animal para a superfície, e consegue matá-lo com um arpão. Porém, enquanto voltava para a praia, o peixe foi alvo de constantes ataques de tubarão, e chegou à costa completamente destruído. Santiago, desolado, volta para sua casa e vai dormir pronto para iniciar sua rotina mais uma vez.

Em 1958, a Warner Brothers comprou os direitos de adaptação do livro e realizou um filme homônimo, dirigido por John Sturges (Sete Homens e Um Destino) e estrelado pelo astro Spencer Tracy (Julgamento em Nuremberg). O roteiro, escrito por Peter Viertel, é quase que uma transcrição do texto original de Hemingway, consistindo em uma das adaptações cinematográficas mais fiéis ao material literário original já vistas.

O filme é sustentado, quase que inteiramente, pela grande atuação de Tracy. Ele encarna o velho pescador de corpo e alma. Em alguns momentos do filme, é quase como se o espectador sentisse o cansaço de Santiago junto com ele, em meio à batalha contra o peixe.

O Velho e O Mar é um filme de pequenos prazeres, como a sensação de intimidade que é estabelecida entre quem assiste ao filme e o personagem principal, quase sempre enquadrado acima do peito, enquanto ouvimos seus pensamentos e reflexões acerca da vida. O protagonista é um homem humilde e simples, que não precisa de muito para estar satisfeito. Ama a natureza, e principalmente, o mar, a quem ele gosta de chamar de “a mar”, como se fosse uma mulher.

Durante o filme, é firmada uma relação de amor e ódio entre o homem e o peixe que ele está tentando pegar. Ambos estão dando absolutamente tudo que podem para atingir seu objetivo, e ambos estão levando um ao outro à destruição. “Eu te amo, peixe. Mas vou te matar até o fim da noite”, diz Santiago. Quando os tubarões começam a destruir o corpo do peixe, o velho sofre junto. Sofre, pois, após tanta dor e sofrimento para pescá-lo, não o deu um fim digno. As cenas em que o homem briga com os tubarões são dotadas de uma grande carga emocional, graças à combinação entre a emoção retratada por Tracy e a ótima trilha sonora de Dimitri Tiomkin, que recebeu o Óscar por este trabalho.

Como, durante a maioria do filme, o velho é o único personagem em cena, a música configura um personagem à parte, ditando o ritmo da odisseia solitária de Santiago. Sturges opta, com precisão, em usar pequenos flashbacks de sonhos e memórias do personagem durante o filme, de forma a evitar o cansaço visual que a mesma paisagem do alto-mar causa, oferecendo momentos de alívio para a narrativa.

O filme é simples e direto, assim como o livro, na forma de tratar seus temas principais. O Velho e O Mar é uma história sobre a persistência do homem, e seu constante embate contra a natureza. O homem, como diz o velho, não pode ser derrotado. Seu espírito de luta é maior do que o de qualquer outra espécie. Quanto mais testado ele é, mais força ele demonstra para superar suas dificuldades.

No fim de sua vida, Hemingway sofria de depressão e diversos outros problemas psicológicos. Este livro, em particular, parece demonstrar a admiração que ele tem pelo ser humano, por maiores que sejam seus defeitos, e também sua vontade em retratar uma história de superação, para que, talvez, ele se sentisse melhor após a escrever.

Por esta obra, o escritor ganhou o prêmio Pulitzer de ficção, e, um ano depois, foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura. O livro permanece como um clássico imortal da literatura, e como um dos mais populares do autor. O filme de Sturges, sucesso de público e crítica, tem êxito justamente por retratar a história de Santiago com a mesma paixão e sutileza do livro, em uma adaptação fiel e bem feita, que conta com a grande atuação de Spencer Tracy, idealizando o espírito incansável do ser humano

Fonte cantodosclassicos

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