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Quarta, 22 Novembro 2017 08:00

Poemas de Hilda Hilst

Hilda Hilst foi uma poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira.

Sonetos que não são

 

Aflição de ser eu e não ser outra.

Aflição de não ser, amor, aquela

Que muitas filhas te deu, casou donzela

E à noite se prepara e se adivinha

 

Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha

Que te retém e não te desespera.

(A noite como fera se avizinha).

 

Aflição de ser água em meio à terra

E ter a face conturbada e móvel.

E a um só tempo múltipla e imóvel.

 

Não saber se se ausenta ou se te espera.

Aflição de te amar, se te comove.

E sendo água, amor, querer ser terra.

– Hilda Hilst, in “Do Amor”.

 

***

 

 

 

Como se te perdesse, assim te quero

Como se te perdesse, assim te quero

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

 

Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.

 

Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.

– Hilda Hilst, in “Do Amor”.

 

***

 

 

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.

Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.

Dirás que sangue é o não teres teu ouro

E o poeta te diz: compra o teu tempo.

 

Contempla o teu viver que corre, escuta

O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.

Enquanto faço o verso, tu que não me lês

Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

 

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:

“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.

Irmão do meu momento: quando eu morrer

Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:

MORRE O AMOR DE UM POETA.

 

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,

E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto

Não cabe no meu canto.

Hilda Hilst

 

***

 

Honra-me com teus nadas

 

Honra-me com teus nadas.

Traduz me passo

De maneira que eu nunca me perceba.

Confunde estas linhas que te escrevo

Como se um brejeiro escoliasta

Resolvesse

Brincar a morte de seu próprio texto.

Dá-me pobreza e fealdade e medo.

E desterro de todas as respostas

Que dariam luz

A meu eterno entendimento cego.

Dá-me tristes joelhos.

Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra

E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.

Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.

Tu sabes que amo os animais

Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome

Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.

Talvez assim te encantes de tão farta nudez.

Talvez assim me ames: desnudo até o osso

Igual a um morto.

– Hilda Hilst, in “Sobre a tua grande face”, 1986.

 

Hilda Hilst nasceu em 21 de abril de 1930, na cidade interiorana de Jaú, no Estado de São Paulo. Foi poeta, escritora e dramaturga.

 

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Fonte revistapazes

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