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Quinta, 09 Novembro 2017 07:19

Crítica | Snowden: Herói ou Traidor

Oliver Stone sempre foi um realizador conhecidos por trazer em seus filmes temas incômodos ao seu país de origem.

Extremamente politizado, Stone alia uma narrativa que traz um novo olhar para um assunto polêmico, com uma forma capaz de atrair o público. A história de Edward Snowden, o hacker que divulgou uma série de informações a respeito de como os EUA espionavam o mundo pela internet, é o tema ideal para um longa de Stone.

 

O assunto que polarizou os debates acerca da segurança, da liberdade e até mesmo da política no mundo digital, faz com que Snowden: Herói ou Traidor seja um filme de extrema importância para o cenário atual, discutindo de forma consciente e popular qual foi a importância do debate possibilitado por Edward Snowden, mesmo que seu realizador esteja numa fase de mais baixos do que alto. Desde os anos 2000 é difícil ver Stone acertando em seus projetos, realizando obras de gosto bastante duvidosas, como os pífios Alexandre (2004) e Selvagens (2012), nota-se essa dicotomia entre um filme que tenta se mostrar necessário, mas também retomar uma boa recepção para com o público.

 

Assim, Snowden em sua aproximação com a realidade é um filme que desperta atenção e interesse, e talvez esse seja seu grande trunfo. O longa começa com a chegada de dois jornalistas, Ewen MacAskill e Glenn Greenwald, e a documentarista Laura Poitras à Hong Kong para encontrar Snowden, no momento que revelaria os segredos que esconde. A partir dali o filme segue a um extenso flashback que conta toda a vida deste personagem, desde seu afastamento das forças armadas, a entrada na NSA, sua ascensão junto da CIA, o patriotismo e até a total desilusão diante de como suas operações aconteciam.

 

Dessa maneira, os momentos de dramatização ocorrem em paralelo ao momento que o ex-agente da CIA saiu da camuflagem e tornou público todos os artifícios da empresa de inteligência. Este encontro com os jornalistas e a cineasta contemplam as filmagens do verídico Citizenfour (2014). E Snowden é justamente isso, uma forma mais assimilável de transmitir tudo o que está contido no preciso e informativo filme de Poitras. O longa de Stone é uma forma muito mais palatável de organizar os atos políticos que envolvem aquela figura.

 

Sendo assim, Snowden é um filme que fica muito mais interessante quando se aproxima do documentário. Quando de forma clara e evidente tenta, a partir da história que conta, revelar suas consequências reais. Em um momento, o longa se esquece de sua ficção e começa a exibir uma série de imagens reais que se unem numa montagem de justaposição, enquanto a voz de Snowden revela o que a CIA pretendia com todo aquele aparato de vigilância.

 

Isso ocorre no momento mais climático da narrativa, no auge da tensão, no ponto chave em que Snowden esclarece toda sua desconfiança com a agência de inteligência. A conclusão do protagonista vem em forma documental, os EUA através da espionagem cibernética buscavam manter sua hegemonia. E naquela enxurrada de imagens reais é como se o filme evidenciasse que aquilo está ocorrendo na dimensão real e não apenas na ficção.

 

No plano ficcional, Oliver Stone constrói uma mise-en-scène que tenta traduzir essa importância da denúncia de Snowden. Um filme que a todo momento tenta representar a vigilância extrema e constante do mundo moderno, como se tudo estivesse de fato espionando o personagem. Nesse sentido, a fotografia do longa toda digital faz muito sentido, Snowden explora as diversas matrizes digitais, com imagens que se diferem muito entre si, como se cada câmera estivesse lá como pode, registrando o que é possível e não o que é melhor.

 

Snowden: Herói ou Traidor é um longa cheio dessas ideias que tentam explorar o mundo digital. Até mesmo sua banda sonora é composta por um som quase ininterrupto de interferência, como se algum aparelho eletrônico estivesse escondido na cena; ou até animações que brincam com a lógica entre o biodigital e o próprio corpo do personagem, por exemplo, quando as imagens de pessoas sendo vigiadas se unem formando o olho do protagonista. No entanto, como é possível notar pela descrição anterior, a película é dotada de uma extravagância geral, algo que chega a beirar os limites do mau gosto.

 

Toda ideia visual é utilizada ao extremo, com um exageiro de quem necessita demonstrar que há a presença de um diretor por trás daquele filme. No entanto, a cada uso de uma lente fish eye que distorce completamente as formas, ou um uso desmedido da profundidade de campo, ou até mesmo as projeções na janela do quarto de hotel em Hong-Kong que mostram os flashbacks dentro do presente, apenas mostram uma falta de tato enorme de Oliver Stone. Um diretor com obras bastante contundentes, mas que está com uma dificuldade enorme de mostrar seu valor cinematográfico.

 

E se esse exagero está presente nos planos, na montagem e na trilha musical que edifica Snowden como um grande herói, há um núcleo dedicado a essa extravagância, e ele reside na relação entre o personagem título e Lindsay Mills (Shailene Woodley). Esse núcleo romântico do longa tem sua importância, uma vez que mostra o lado mais individual de Snowden, fato que humaniza aquele personagem, esse vínculo afetivo cria também uma empatia mais forte com o protagonista. Todavia, Stone concede um tom tão melodramático nesse quesito que muitas vezes a grande questão do longa parece ser justamente essa relação, tornando-se muitas vezes um filme sobre as discussões de relacionamentos e reconciliações do casal com a CIA sendo o grande pivô dessas situações. Há uma falta coesão e concisão entre micro e macro narrativas.

 

Assim seria desleal dizer que Oliver Stone recuperou a forma em Snowden. O filme tem seu lugar assegurado muito mais pela importância do tema que retrata do que pelo modo que é construído. Uma coisa Stone ainda é extremamente capaz de fazer, reconhecer quando um tema se mostra necessário para estar numa tela de cinema, ainda que não consiga realizá-lo da melhor forma possível.

Fonte observatoriodocinema

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